#AVozDeDamiris. FÉRIAS. Crônicas de um cidadão de bem.

A imagem pode conter: texto

Todo o dia a mesma coisa: antes mesmo de sair da cama, abro o jornal no aplicativo e pulo as páginas até o obituário. Atento aos detalhes, identifico sinais de esperança em cada perfil. O simpático senhor da primeira foto é idoso – e eu, um jovem de trinta e poucos anos. A mulher de óculos e dois filhos se entregou aos doces e chocolates após o fim do casamento e sofria de diabetes – e eu mantenho alimentação regrada e exames em dia. O menino levou quatro tiros na periferia – e eu evito essas regiões violentas.

Mas um susto: no canto inferior da coluna, quase de saída, um homem de meia idade, aparência saudável e ares de atleta quase acaba com meu otimismo. Um alento: caiu de moto – e eu jamais subi em um veículo de duas rodas justamente por saber que essas bugigangas são fabricadas para ir ao chão. O dia começou bem.

O medo da morte pode deixar muita gente paralisada. Há governadores, por exemplo, enfrentando o vírus como frangotes. Eu não. Desde a descoberta dos obituários, que trazem tanta gente diferente de mim, posso sair da cama mais tranquilo e bater no peito repetindo que é hora de trabalhar.

Vamos lá pessoal! Os jovens nem sentem que ficaram doentes. Eu, por via das dúvidas, tirei mais 30 dias de férias e seguirei com a leitura dos obituários em busca do alívio que só as doenças pré-existentes – dos outros – garantem ao cidadão de bem.

*Damiris é colunista da Lagartixa e se define como um cidadão de bem.