#AVozDeDamiris. Humans of cercadinho da Alvorada. Crônicas de um cidadão de bem.

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#Rafael – o Guedista.

Rafael nasceu no dia 4 de maio, depois de uma gestação tranquila, pelas mãos de uma amiga de sua mãe. O parto foi em casa, acompanhado de cantos herdados de antigos povos indígenas do alto xingu.

Na infância, Rafael aprendeu a dividir tudo o que era seu com os amiguinhos e respeitava cada ser vivo como o guardião de parte da energia de pachamama, a grande deusa terra. Cada conquista – os primeiros passos, as primeiras palavras, a descoberta da escrita – foram comemorados de forma efusiva pelos pais, que o cobriam de abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.

Adolescente rebelde, fumou maconha cedo e permaneceu desde sempre convicto de que os filtros de sonhos manualmente produzidos pela mãe eram tralha inútil. Nada grave.

O sonho do menino era ser astronauta. O desejo da mãe, que via a Nasa como um braço de dominação americana, era ter um filho poeta.

As circunstâncias da vida – ou, mais precisamente, as notas não tão altas do ENEM – o levaram para a faculdade de economia. Nas aulas, pagas pelos pais e frequentadas sem muito entusiasmo, leu resumos e pedaços de obras dos grandes pensadores e quase entendeu Adam Smith. Apaixonou-se pela Escola de Chicago e decorou o apartamento que ganhou de presente pela aprovação no vestibular com uma grande foto do pai do liberalismo, Hayek.

Entusiasta da meritocracia, principalmente para os outros, liberal até a medula, ainda que conservador nos costumes, garante ter votado no Amoedo no primeiro turno.

Diante de Haddad, converteu-se ao Guedismo. Defende com unhas, dentes, cotoveladas e xingamentos nas redes a ideia de que tudo vale a pena enquanto tivermos o Posto Ipiranga na Esplanada. A mãe morreu há cinco anos, pouco antes da metamorfose do filhinho querido.

*Damiris é cronista do jornal Lagartixa Diária.