#milpalavras. O poder que falta aos pais.

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Histórias de fotos.

Madrugada de domingo, 9 jovens morrem pisoteados após um tumulto generalizado acontecer em baile funk dentro da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. O motivo da confusão? Uma ação da PM desastrosa.

Mas os detalhes pouco importam para o momento da foto que trago hoje nessa coluna. A dor de uma mãe. Perdida, com o corpo inerte do seu filho de 16 anos dentro de um caixão numa tarde fria de segunda-feira, Maria Cristina já havia derramado muitas e muitas lágrimas antes deste click.

Naquele momento, com as poucas forças que ainda restavam, ela segurava a barra do carrinho que conduzia o caixão. Distante, parecia mentalmente pedir que ele levantasse e a abraçasse. Queria ter o poder que nenhuma mãe ou pai têm, o poder de nunca perder um filho.

Cheguei ao cemitério, onde o corpo foi velado, por volta do meio-dia. O irmão de Denys pediu que a imprensa não entrasse no velório. Obviamente respeitamos esse momento tão doloroso. Mas se fazia importante registrar e divulgar a dor dessa família destroçada, ao que tudo indica, pela truculência de uma ação policial muito mal planejada.

Partimos então, eu e mais 2 colegas para o cemitério seguinte, onde Denys seria sepultado. Lá, esperamos por cerca de duas horas e meia, a chegada do caixão. Nesse ínterim, nossa conversa foi do próprio acontecimento em si, até às comemorações do Flamengo uma semana antes. Sorríamos num minuto e no outro nos sentíamos mal lendo ou comentando sobre a tragédia de Paraisópolis.

É impossível se colocar no lugar de uma mãe que tem um filho pisoteado e morto. É impossível.

Mas o coração dispara e um grande temor açoita a alma de quem tem o mínimo de amor ao seu próximo. Ainda mais sendo pai de 3, como eu.

Independentemente de como seu filho seja, da conduta que tenha, das escolhas que faça. Uma mãe ou um pai, num momento de dor como esse, tenho quase absoluta certeza, devem fazer uma regressão instantânea para àquela fase em que as primeiras palavras, ainda erradas e enroladas, eram pronunciadas. À época daquele andar desengonçado, daquele sorriso grande e com dentes faltando que tanto emociona quem tem um filho.

O carro da funerária chegou. Fizemos um rápido registro e nos afastamos. Numa sala, a última oração da família. Do lado de fora, eu e outro colega conversávamos sobre a dinâmica do cortejo e como nos posicionaríamos quando um grito estridente cortou o ar. E nos atingiu os ouvidos, dilacerando todo nosso pensamento. Nos entreolhamos assustados e nos afastamos ainda mais. Sem reação, sem mais nenhuma palavra a dizer, somente aquele doloroso grito que externou a dor de todas as mães e pais dessa tragédia:

“Filhoooooooooooooooooo”

Marcelo Chello é fotojornalista. Freelancer da Folha de S.Paulo, O Globo e agências Internacionais. Fotocolunista da Lagartixa. @chellofotografo / www.marcelochello.com.br

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